Cansada de ouvir falar em liberalização, não consegui resistir a deixar aqui uma humilde opinião pessoal sobre o tema ou não existissem experiências sobejamente suficientes para demonstrar a sua real (in)existência e desde logo o seu (in)sucesso em Portugal.
Quando se fala em liberalização ou liberalismo, lembro-me do liberalismo económico que visa dar "mais espaço" ao mercado e aceitar as regulações estatais na condição destas representarem vantagens incontestáveis, mas também do liberalismo político, na medida em que concebe a sociedade como constituída por indivíduos que procuram maximizar o seu bem-estar com regras tão equitativas quanto possível, apesar de reconhecer que as recompensas em matéria de estatuto, de rendimento, de prestígio ou até de influência serão sempre variáveis, atendendo a que há indivíduos com mais êxito do que outros no tal "mercado" das competências e das aptidões, fazendo com que em termos de "ideais" subsistam desigualdades, tal como defendia John Rawls na Teoria da Justiça.
Ou seja, nesta representação liberal das sociedades e tal como defendido por Max Weber, o funcionamento da sociedade acaba por dar origem a uma "teia" de estatutos onde há vedetas, sábios, altos funcionários, responsáveis sindicais, empresários, políticos e muitas outras categorias que integram pessoas de influência, de prestígio ou de poder - ou as ditas "elites" como lhes chamava o sociólogo liberal Vilfredo Pareto.
Mas a acrescer ao liberalismo económico e político, junta-se ainda o liberalismo filosófico, que defende que o indivíduo é racional e tem a aspiração de dispor de uma autonomia tão ampla quanto possível e quer ser respeitado na sua dignidade na mesma medida em que respeita o próximo.
Pois bem. É então no cruzamento destas aceções do liberalismo - político, económico e até filosófico - que tenho dificuldade de o vislumbrar como solução para o que quer que seja no nosso país. Mas se dúvidas houvessem, bastava olhar também para alguns casos práticos além fronteiras. Por exemplo, uma criança oriunda de uma família operária, tem nas sociedades liberais como é o caso do Reino Unido ou até dos países escandinavos, menos oportunidades de frequentar a universidade do que aquela que é filha de um quadro superior, o que acaba então por ser contraditório com os valores defendidos pelo liberalismo.
Mas voltando ao nosso país, bem podemos olhar à experiência liberal portuguesa iniciada no cavaquismo, que procedeu à liberalização de vários setores, como a banca e as telecomunicações, numa espécie de liberalismo artificial sob a tutela do Estado, seguindo uma estratégia que mais tarde se viria a estender já pela mão de outros governos, por exemplo ao setor postal, para poder concluir sobre alguns dos seus (in)eficientes resultados traduzidos desde logo numa expansão do setor público/partidário financeiramente onerosa para o cidadão, sem que se vislumbrem as tais "vantagens incontestáveis" ou qualquer "maximização do bem-estar com regras tanto quanto possível equitativas", nomeadamente em termos da qualidade ou preço desses serviços, perpetuando Portugal como um país estruturalmente pobre e rendido a uma espécie de clientelismo, outrora muito bem retratado por Eça de Queirós nos Maias.
Já agora e em jeito de conclusão, desengane-se quem por via desta opinião aqui vê implicitamente qualquer manifesto de esquerda ou de direita, pois o que aqui se pretende é partilhar o que aos meus olhos representa o liberalismo e a liberalização no nosso país.

"Liberal" já parece um cliché...
ResponderEliminarO liberalismo não me seduz.
ResponderEliminarBom resto de dia, Ana!
Como se vê, a mim também não, José!
ResponderEliminarObrigada e boa tarde!
Ou seja, é um conceito tão desgastado que já nem tem um verdadeiro sentido...
ResponderEliminarBeijinhos!!
Não se vê benefícios no liberalismo português.
ResponderEliminarInteiramente de acordo!
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ResponderEliminarBeijinhos Maribel!
A liberalização tal como é praticada em Portugal, não me seduz e é uma teoria que não passa de palavras
ResponderEliminarBeijinhos
A liberalização é interessante quando beneficia quem a eles interessa, o cidadão comum será sempre o escravo a quem se trava o caminho.
ResponderEliminarUm beijinho
Não diria melhor!
ResponderEliminarBeijinho
De facto assim é, querida Manu!
ResponderEliminarBeijinho
Nos tempos que correm e não tão somente em pais desenvolvidos e basta nos olhar a volta, usar palavras como "liberalização" que provem de uma outra chamada "liberdade" é quase uma anedota
ResponderEliminarNuma sociedade de status e egos, igualdade e liberdade, nunca serão palavras que poderão conjugar o nosso dia a dia infelizmente, haverão sempre demasiados interesses dos chamados poderes para que isso nunca aconteça
Mas entretanto lá vão floreando o nosso dia a dia com esta palavra gira muito na moda ;)
bem haja Ana D
Tens toda a razão mas por mim estou cansada de palavras da moda como esta...foi aliás esse cansaço que despertou a vontade de abordar o tema. Falamos do futuro do país... que merece ser discutido com seriedade, respeito e sobretudo sem demagogia.
ResponderEliminarUm abraço, cúmplice